No Bairro do Aleixo

terça-feira, junho 28, 2005

Casimiro II.

Levantou-se da cadeira. Fixou um ponto no meio do rio. Não sei, não sabe ninguém porque canto o fado neste tom magoado de dor e de pranto... O sol ainda ia alto. A meio do verso fechou os olhos e os corações começaram a bater ao ritmo lento da canção. Embalados. Os barris de cerveja e os garrafões de vinho estavam cheios. E toda a gente se calou para ouvir a melhor voz das redondezas. ...foi deus que me pôs no peito um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar... Não pararam de chegar pessoas. Carros estacionados em segunda fila. Autocarros cheios. A Flor do Gás a descarregar pessoas continuamente. O Largo do Ouro ficou a abarrotar. Crianças esmagadas, mulheres grávidas em trabalho de parto, ressacas suspensas por alguns minutos. Se canto, não sei o que canto, misto de ventura saudade e ternura e talvez amor... A voz do Casimiro elevou-se do Largo do Ouro até ao céu, as torres do Aleixo tremeram, as marés atrasaram-se e esqueceu-se o S. João para na memória ficar ‘o dia em que o Casimiro cantou, finalmente, no bairro que o viu nascer.’ ...sinto o mesmo que quando se tem um desgosto e o pranto do rosto nos deixa melhor...

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