No Bairro do Aleixo

terça-feira, maio 25, 2004

Sofia.

Começou a vir ao Bairro em Novembro do ano passado. Não tem uma perna. Apoia-se como pode em duas muletas. Não é fácil ignorá-la. É muito nova, adolescente, bonita. Foi bonita. Tem os lábios feridos, a cara marcada por cicatrizes e as mãos calejadas pelas muletas. Passa os dias nos semáforos junto ao Centro de Saúde a pedir moedas: espera pelo sinal vermelho, percorre um a um os carros que querem virar à esquerda, faz contas ao resultado e recomeça. O seu ar jovem comove as pessoas. A perna amputada, reflexo de um desconhecido conjunto de infecções causadas por seringas e substâncias indefinidas, provoca receio. As pessoas que nada têm a ver com os negócios do Bairro gostam dela. Oferecem-lhe coisas, comida quase sempre, e falam com ela quando se cruzam. Já a vi sorrir nessas ocasiões.

2 Comments:

  • Muitas vezes tento não reparar. Quando olho acho-o sempre bonito mais do que seria esperar. Tem uns olhos azuis, que ligo sempre ao céu e ao mar de Italia, de onde dizem que ele é. Os olhos as vezes tem uma clareza que se apagou no resto do seu corpo. Agora acho que é polaco, da mesma cidade onde nasceu o papa. Mostra a cruz que traz ao pescoço quando pede a moeda para a sopa, e quando dorme, com os sapatos muito bem arrumados junto a cabeça, aperta-a junto ao peito.

    By Anonymous Anónimo, at 4:41 da tarde  

  • Já a vi bastantes vezes. Acho-a muito bonita ainda assim (e tento imaginar como teria sido antes...)

    By Blogger Paula, at 6:41 da tarde  

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